Frei Paulo: O adeus a Soares, o prefeito vaqueiro
Na segunda-feira, 07/03, uma multidão tomou as ruas e praças da cidade de Frei Paulo, Sergipe, para se despedir do ex-prefeito Manuel Soares de Souza (prefeito vaqueiro), o mais expressivo líder popular do município desde a sua emancipação política (1920). Soares, 62 anos, faleceu às 10h15min no domingo, 06/03, no hospital São Lucas onde estava internado há duas semanas lutando contra um câncer de fígado. Seu corpo foi velado em dois momentos, primeiro, do meio da tarde do domingo até as primeiras horas da manhã de segunda-feira, na sede da fazenda Lameiro onde residia desde que deixou a prefeitura em 2000, posteriormente na sua residência na Praça São Paulo, as 06:00 as 08h30min, onde recebeu as póstumas homenagens dos seus amigos, familiares e seguidores políticos. Na matriz de São Paulo, com as presenças, do governador do estado Marcelo Deda, o vice- governador Jackson Barreto, o senador Eduardo Amorim, prefeitos, vereadores e lideranças políticas da região, os padres Jose Antonio, Jose Bispo e Jadson da Silva Ramos, concelebraram uma emocionada missa de corpo presente para uma multidão que lotou o templo. Ao final da celebração foi concedida a palavra ao governador que fez um pronunciamento tomado pela verdade, gratidão, reconhecimento, amizade e emoção. As lágrimas do próprio governador e da multidão traduziam a dor que todos sentiam ao ver o vaqueiro partir. Pelas ruas de Frei Paulo seguiu o cortejo silencioso, até o cemitério local, onde foram feitas as exéquias pelos três padres, concluindo as homenagens do povo ao seu líder. Oficialmente o município esta de luto, uma vez que o prefeito Jose Arinaldo Filho, determinou que fosse hasteado o pavilhão municipal a meio pau. Na cidade o sentimento do povo é de orfandade, pois Soares era considerado, o pai da pobreza. Como lembrou o padre Jose Bispo em sua homilia não foi um prefeito de grandes obras de concreto na cidade, mas, construiu no coração do povo o sentimento de gratidão por sua generosa preocupação em servir e minimizar as dificuldades daqueles que lhe transformaram líder e lhe concederam o poder. Em sua fala o governador Marcelo Deda destacou que o grande exemplo que Soares deixa para a família e o seu povo é o da palavra honrada, do destemor e coragem para lutar, como lutou pela vida sem perder jamais a esperança, mesmo sabendo da gravidade de sua enfermidade. Manoel Soares de Souza nasceu no dia cinco de outubro de 1948, no município de Itabaiana, mas ainda jovem chegou a Frei Paulo, onde trabalhou como carteiro, foi motorista de Caminhão, e já no início dos anos 70 iniciou sua militância política como secretário e braço direito do seu sogro, Jose Nunes, conhecido por Batista Felix que foi prefeito do município de 1977 a 1982. Em 1988 soares se elegeu prefeito pela primeira vez, ao derrotar a professora Raquel, que tinha o apoio do então prefeito Jose Arinaldo de Oliveira; em 1992 apoiou e elegeu com o apoio do povo principalmente das camadas mais pobres do município, Jose Paulo Costa, para quatro anos depois (1996) novamente se eleger prefeito, administrando o município até 31 de dezembro de 2000. Foi na campanha de 1996 que Soares ganhou o carinhoso titulo de Prefeito Vaqueiro, por sua ligação com o mundo da pecuária e por ser o preconizador da tradicional festa do vaqueiro na cidade a época missa do vaqueiro. Em 2000 o "Prefeito Vaqueiro disputou a reeleição, mas foi vencido nas urnas pelo médico Geraldo Nunes de Almeida. Em 2004, voltou a disputar a prefeitura, mas foi derrotado pelo então vice-prefeito Aderbaldo Oliveira. Finalmente em 2008 Soares tentou pela terceira e ultima vez retornar a prefeitura, mas perdeu por parcos 249 votos para o atual prefeito Jose Arinaldo de Oliveira. Manoel Soares de Souza, o Prefeito Vaqueiro, deixa viúva dona Mércia Dantas Souza, seis filhos, Wladimir, Wanderson, Wagner, Wimerson, João Manuel e Zingará, e cinco netos.
Ancelmo Gois
Colunista do Jornal o Globo (o cargo era exercido no momento da entrevista)
Entrevista realizada pelo site ABI online da Associação Brasileira de Imprensa por josé Reinaldo Marques
Link: http://www.abi.org.br/paginaindividual.asp?id=3583
Com 45 anos de profissão, o jornalista Ancelmo Gois, colunista do jornal O Globo, chega aos 60 anos de idade com muito dinamismo, trabalhando em média 12 horas por dia. Ele diz que o seu apetite pela política é que o trouxe para o jornalismo: "No começo eu sempre fiquei dividido entre a política e a atividade jornalística", declarou.
Começou sua carreira na Gazeta de Sergipe aos 15 anos. Foi chefe do escritório da Veja no Rio, função que acumulou com a de titular da coluna "Radar". Convidado por Marcos Sá Correa trocou a revista pela coluna "Informe JB" no Jornal do Brasil, veículo que era o seu grande sonho de consumo.
Nesta entrevista Ancelmo Gois fala da sua participação no movimento estudantil, o seu envolvimento com o Partido Comunista Brasileiro, do exílio na União Soviética e sobre o dilema que viveu entre a política e o jornalismo e que durou até a edição do AI-5, em dezembro de 1968.
ABI Online - Como é chegar aos 60 anos de idade e 45 de
profissão como um dos jornalistas mais prestigiados da sua
geração?
Ancelmo Gois - Eu ralei muito e ainda ralo até
hoje. E também sou muito grato às pessoas que me ajudaram e me
deram oportunidades. A primeira chance que eu tive foi no jornal A
Gazeta de Sergipe, quando eu tinha 15 anos de idade.
ABI Online - Apesar da pouca idade você já tinha a convicção de que queria ser jornalista?
Ancelmo - Quando eu cheguei ao jornalismo eu me vi numa encruzilhada, que era a vontade de ter uma participação política efetiva, e ao mesmo tempo exercer a profissão de jornalista. No meu tempo, política e jornalismo se misturavam. Essa era uma prática comum no Brasil naquela época (anos 60), daí haver muitos políticos que também eram jornalistas. O ambiente no País era mais propício a essa mistura. No começo, eu sempre fiquei dividido entre a política e a atividade jornalística.
ABI Online - Como surgiu esta sua inclinação para a
política?
Ancelmo - Eu fui muito influenciado pela família. O meu
pai, Euclides Gois, foi vereador pelo Partido Republicano, em Frei
Paulo, onde eu nasci, em 1948, no interior de Sergipe. Lá em casa,
era muito comum os políticos vindos da Capital serem recebidos para
almoços, quando iam fazer campanhas no interior. Então, eu muito
moleque, fui ouvindo aqueles papos sobre política, que me chamavam
a atenção e me despertavam muita curiosidade.
ABI Online - Você costumava acompanhar de perto as
campanhas eleitorais?
Ancelmo - Em 1962, quando o Lott disputou a Presidência da
República com o Jânio, eu tinha 14 anos de idade e adorava
freqüentar os comícios. Tanto é que até hoje eu guardo, com muita
força, as recordações das campanhas daquela época. O Lott, como era
Marechal, usava uma espada de ouro como símbolo de campanha. O do
Jânio era a vassourinha. Eu ia para os comícios e adorava cantar os
jingles das campanhas.
ABI Online - Você ainda se lembra desses jingles?
Ancelmo - Nos comícios do Lott, de quem o meu pai era
eleitor, eu cantava: "Espada de ouro / quem tem é o Marechal/ Lott,
Lott você é o ideal / Porque da dobradinha PTB-PSD...". Mas,
escondido do meu pai, eu ia aos comícios do Jânio, cujo jingle de
campanha era: "O homem da vassoura vem aí / Já sei para onde ir com
a família..." (risos) Eu adorava isso. Ligava o rádio para ouvir a
Nacional do Rio de Janeiro, interessado nos acontecimentos
políticos. Eu fui criado em um universo que sempre me despertou um
grande interesse pela política.
ABI Online - E da campanha do Jango, você também tem
alguma recordação?
Ancelmo - Eu me lembro também da música criada para o
Jango pelo Miguel Gustavo, que era assim: "Na hora de votar / A
dona de casa vai jangar / É o Jango, é o Jango / É o João Goulart /
Pra vice-presidente / minha gente vai votar/ É no Jango, é no Jango
/ No doutor João Goulart". Isso me emocionava muito. Eu cheirava
aquele ambiente, respirava as brigas da UDN com o PSD. Na minha
adolescência e na juventude eu era movido pela política, que acabou
me levando para o jornalismo.
ABI Online - Como assim?
Ancelmo - Como eu já disse, eu comecei freqüentar a Gazeta
de Sergipe em 1963, com 15 anos. Mas quando eu entrei para o jornal
a minha paixão não era o jornalismo, era a política. A Gazeta,
naquele tempo, pertencia ao Partido Socialista Brasileiro, que
tinha uma base socialista muito forte. Tanto é que antes de se
chamar Gazeta de Sergipe, o título do jornal era Gazeta
Socialista.
ABI Online - Mas você acabou mudando o foco, não seguiu
a carreira política e virou jornalista.
Ancelmo - Pois é, depois que eu ingressei no jornal nunca
mais abandonei a profissão. São 45 anos na atividade
jornalística.
ABI Online - E como foi a sua estréia no jornal?
Ancelmo - Aconteceu por causa da descoberta de petróleo em
Sergipe, em novembro de 1963, na cidade de Carmópolis. Mesmo sendo
um adolescente fui destacado para fazer essa matéria.
Evidentemente, que isso foi uma maluquice. Pois eu não sabia nem
escrever à máquina direito.
ABI Online - Essa experiência deve ter sido muito
proveitosa...
Ancelmo - É por isso que eu costumo dizer que tive duas
grandes escolas. A primeira de política; a segunda de jornalismo,
que eu cursei em um jornal do interior. Hoje, um moleque como eu
era não consegue nem passar aqui na portaria do jornal (se
referindo ao Globo). Quanto mais entrar. E se isso vier a
acontecer, será quando ele estiver com 20 anos de idade, no último
ano da faculdade. Então ele ingressa no jornal (e está certo) e vai
fazer uma coisa só.
ABI Online - Qual foi o saldo positivo desse
período?
Ancelmo - Eu mexi com muitos assuntos. Fui até crítico de
cinema, entre outras coisas. Como o jornal era pequenininho, a
gente acabava fazendo de tudo. Como acontece em qualquer
cidadezinha do interior, onde a pessoa termina distribuindo e
vendendo o jornal para o qual escreve. Deus me deu essa felicidade
de viver dentro de jornal. Inclusive, eu era um péssimo aluno, não
queria ir para a escola. O meu desejo era ficar dentro do jornal,
onde eu conheci a impressão a quente, no chumbo. A minha primeira
função foi a de limpar os clichês que eram usados para a impressão
das fotografias.
ABI Online - O que mais é marcante na sua atuação no
jornalismo em Sergipe?
Ancelmo - A imensa generosidade de pessoas que me
ajudaram naquele período, como os dois grandes mestres que eu tive.
Um deles foi o José Rosa de Oliveira Neto (que já morreu) e chegou
a ser dirigente do Partido Socialista. Ele me orientou muito com
relação à leitura. Eu era um jovem metido a besta, que só queria
saber de livros de Filosofia. Ele me dava bronca e dizia: "Você não
tem que ler livros de Filosofia p... nenhuma. Vá ler José Lins do
Rego, Graciliano Ramos e Jorge Amado". Esse cara foi fundamental na
minha vida.
ABI Online - Você citou um dos seus mestres, quem foi o
outro?
Ancelmo - O Ivan de Macedo Valença, que está vivo e esteve
na minha festa de 60 anos. Ele foi o meu primeiro chefe na Gazeta
de Sergipe. Um profissional com uma grande sensibilidade
jornalística. Estávamos na década de 60, quando o creme do creme do
jornalismo brasileiro era o nosso Jornal do Brasil, no qual ele se
inspirava. O Jornal do Brasil tinha o "Informe JB", então o Ivan
criou o "Informe GS" (Informe Gazeta de Sergipe). Ele morava em
Aracaju, que naquela época era uma cidade pequena ainda, mas vivia
antenado, pesquisando o que era bem-feito.
ABI Online - Que outras inovações o Ivan introduziu na
Gazeta?
Ancelmo - Na Gazeta de Sergipe ele introduziu muitas
idéias gráficas que pesquisava nos jornais, inclusive publicações
estrangeiras. Mas principalmente do Jornal do Brasil. Eu fui criado
nesse ambiente até que veio o golpe de 1964.
ABI Online - E aí...
Ancelmo - E aí que o jornal foi empastelado, muitos
profissionais foram presos. Isso tudo acontecendo muito perto de
mim. Eu vi os agentes da ditadura entrar na Gazeta, empastelar o
jornal, com gente fugindo, entre outras coisas. Por isso, eu me
considero um cara de sorte, porque durante toda a minha trajetória
ligada ao jornalismo, Deus colocou diante de mim coisas muito
marcantes.
ABI Online - Mas tem também o seu próprio
mérito...
Ancelmo - Eu me refiro a ele usando uma frase de um
personagem do Guimarães Rosa, que diz assim: "Eu quase que nada não
sei. Mas desconfio de muita coisa". Eu sempre fui muito curioso,
mas também tive a sorte de ter perto de mim pessoas muito
interessantes.
ABI Online - Você ainda não explicou como se decidiu
pelo jornalismo.
Ancelmo - O dilema entre a política e o jornalismo durou
até a edição do AI-5. Eu ficava muito dividido entre o jornalismo e
as minhas idéias socialistas, que incorporei desde o tempo da
Gazeta. Quando aconteceu o golpe militar, eu era secundarista e
comecei a participar do grêmio do colégio, que já foi presidido, no
passado, pelo Joel Silveira, que também é sergipano. Nós fizemos
greves e passeatas contra a ditadura, quando então, em dezembro de
1968, veio o AI-5 e eu acabei sendo preso.
ABI Online - Para onde você foi levado?
Ancelmo - Para o 28º Batalhão de Caçadores, uma unidade do
Exército em Sergipe. Mas nunca fui torturado ou molestado
fisicamente, inclusive fiquei pouco tempo detido, para os padrões
da época. Mas quando eu saí dali o meu emprego na Gazeta de Sergipe
tinha evaporado. Não vou entrar muito no mérito do motivo que levou
o dono do jornal a me demitir, até porque eu ainda não era um
grande repórter, pois estava com a cabeça ainda muito voltada para
a política.
ABI Online - Você procurou logo um outro emprego?
Ancelmo - Aconteceu um fato inusitado. Apareceu uma outra
chance que eu agarrei com muita força. Foi o seguinte: como eu já
militava no Partido Comunista Brasileiro e no movimento estudantil,
no período da prisão eu fortaleci as minhas convicções socialistas.
A ponto de na minha saída da prisão, o partido de maneira
irresponsável, mas que para mim foi a glória, me ofereceu para
estudar na antiga União Soviética.
ABI Online - O que aconteceu em seguida?
Ancelmo - Aconteceu que eu ainda bem jovem, com 20 anos de
idade, fui embarcado para a União Soviética. Eu nunca tinha entrado
num avião na minha vida, e de repente estava voando
clandestinamente para a Rússia.
ABI Online - Como era sua vida na Rússia?
Ancelmo - Eu vivi por algum tempo com o nome falso de Ivan
Nogueira. Porque estávamos na ditadura militar e a gente só
conseguia ir para a Rússia, protegido pela KGB. Foi este órgão que
me deu uma identidade falsa, com retrato, e me transformou numa
outra pessoa. Em seguida, eu fui para uma escola comunista para
jovens, a Escola de Formação de Jovens Quadros, Konsomol, do
Partido Comunista da União Soviética, onde eu estudei sobre o
marxismo e o leninismo.
ABI Online - Como foi que você se virou com a língua, já
que não falava o idioma russo?
Ancelmo - As aulas eram traduzidas, mas a língua a gente
aprende rápido por uma razão muito simples. Você pega um sergipano,
que saiu da caatinga e joga lá na União Soviética. Em dez dias ele
tem que aprender o que é sal, porque aquela comida é uma merda e
insossa. E se você quiser comer batata e não sabe como pronunciar
em russo, depois de três dias você aprende pela extrema
dificuldade. Senão como é que você vai comer ou andar de metrô,
entre outras coisas?
ABI Online - E sobre a escola?
Ancelmo - Era uma escola internacional, onde me deram a
chance de conviver com cinco suecos, dois argentinos, quatro
irlandeses, dez chilenos, entre outros povos. Imagina o que era
morar em um lugar com pessoas de várias partes do mundo. Eu tinha
como vizinhos de quarto dois italianos, com os quais eu conversava
muito, e também com finlandeses. Foi uma experiência muito
rica.
ABI Online - Quando foi que você voltou ao Brasil?
Ancelmo - Em 1970, eu voltei para o Brasil e vim para o
Rio de Janeiro. Eu entrei no País pela Argentina, e a KGB inventou
que eu estava na França. Toda a minha documentação sobre dia e
horário da minha entrada naquele país foi falsificada, o que fazia
parecer que eu tinha morado na França e não na União Soviética.
ABI Online - Assim que chegou você foi logo procurar
emprego na imprensa?
Ancelmo - Não. O meu sonho era me dedicar 24 horas por dia
à causa do Partido Comunista. Eu não voltei pensando no jornalismo.
Eu estava definitivamente apaixonado pela política, que tinha sido
a minha opção entre os anos de 68 e 70. Eu vim para o Rio e queria
apenas ser profissional do PCB. Mas nesse período houve muitas
perseguições, mortes, e de repente, o partido que me dava um
salário ficou sem dinheiro e eu morando de favor, na casa do
jornalista Luiz Paulo Machado, a quem eu devo muito, e que foi meu
colega na Konsomol.
ABI Online - Como foi que você enfrentou essa
situação?
Ancelmo - Eu precisava arranjar um emprego. Eu não queria
voltar para Sergipe. Eu me aproximei dos camaradas do Partido
Comunista no Rio de Janeiro, principalmente do Oscar Maurício de
Lima Azêdo, que foi um grande padrinho meu. Eu procurei o Azêdo,
que naquele tempo era o principal quadro do Partido Comunista na
imprensa no Rio.
ABI Online - Qual foi a atitude do Maurício Azêdo para
lhe ajudar?
Ancelmo - Foi ele quem conseguiu para mim os meus
primeiros frilas. Ele falou com o jornalista Domingos Meirelles
(atual Diretor Financeiro da ABI), que trabalhava na editora Abril,
na revista Realidade. Eu fui procurá-lo no escritório da revista no
Passeio, no Centro da cidade. Domingos me apresentou a um amigo
dele, chamado José Preciliano Martinez, que trabalhava na divisão
de edições técnicas especializadas da Abril, responsável pelas
revistas Máquinas e Metais, Transporte Moderno, Química, Plásticos
e Embalagens e uma outra se não me engano ligada ao ramo de
supermercados.
ABI Online - Você lembra qual foi o seu primeiro
trabalho como freelancer na Abril?
Ancelmo - Foi sobre lingotamento contínuo. Naquele tempo a
indústria siderúrgica brasileira estava em grande expansão. O então
Presidente Médici tinha acabado de lançar um plano nacional para o
setor. Na época, havia três usinas estatais que se destacavam nesse
produto, entre elas a Unsiminas e a Cosipa (Cia. Siderúrgica
Paulista). Lá fui eu atrás do tal lingotamento contínuo, assunto do
qual eu não entendia nada, mas me agarrei naquilo com a fome do
nordestino e a necessidade do retirante. E aí voltei para o
jornalismo.
ABI Online - E ingressou na revista Exame?
Ancelmo - Eu trabalhava com muito tesão, com muito
entusiasmo, e as revistas técnicas começaram a editar no abre
(primeiras páginas) uma coluna chamada "Negócios em exame", que
veio a ser a maternidade da revista Exame, na qual eu comecei a
trabalhar. Depois eu fui subeditor de Economia da Veja, num período
de muitas matérias interessantes, de muitos furos de reportagem.
Naquele tempo na Veja eu colaborava muito com a coluna "Radar", que
era feita pelo Élio Gaspari, que também foi meu padrinho. Depois
quando o Marcos Sá Correa foi dirigir o Jornal do Brasil, me levou
para fazer o "Informe JB".
ABI Online - Esse foi o início da sua carreira como
colunista?
Ancelmo - Eu dei um salto danado, pois o Marcos Sá Correa
apostou em mim com uma coragem sem igual. Então eu deixei o cargo
de subeditor de Economia da Veja, para escrever a mais importante
coluna da imprensa brasileira daquela época, que era o "Informe
JB".
ABI Online - Sempre quando fala sobre o tempo que passou
no JB você se manifesta com muita paixão.
Ancelmo - É fácil de entender. Quando me perguntam por que
eu sou jornalista eu respondo: "por causa do Jornal do Brasil". Eu
era moleque lá na minha Aracaju e tinha uma paixão total e absoluta
pelo JB. Como eu lhe falei, a Gazeta de Sergipe imitava o JB. Todo
dia um avião da Varig chegava na cidade, às três e meia da tarde,
trazendo os exemplares do jornal. E eu fazia parte da molecada que
pegava carona em um jipe velho, para ir ao aeroporto apanhar o
Jornal do Brasil.
ABI Online - Vocês faziam dessa rotina um grande
acontecimento.
Ancelmo - E a minha postura quando via o Jornal do Brasil
era a de um cristão diante da "Bíblia". O dia em que eu entrei no
JB pela primeira vez para trabalhar tive uma crise de choro e
dizia: "P... que p... eu estou no JB". Para um moleque que veio lá
de Frei Paulo, cidadezinha do sertão sergipano, ingressar no Jornal
do Brasil foi bom demais. E o corpo não agüentou a emoção daquele
momento.
ABI Online - Quanto tempo você ficou no Jornal do
Brasil?
Ancelmo - Eu passei seis anos escrevendo o
"Informe JB". Depois desse período eu voltei para a Veja, para
dirigir o escritório da revista no Rio e assumir a coluna "Radar".
Então eu acumulei a chefia do escritório com a responsabilidade
pela coluna. Foram momentos interessantes.
ABI Online - O que levou você a trocar a posição de
destaque que ocupava na Veja pelo site jornalístico Notícias
Opinião (NO)?
Ancelmo - Por uma razão muito simples. Quem fica parado é
poste e a gente precisa constantemente sentir um friozinho na
barriga. No dia em que o profissional se acomoda ele está lascado.
Eu estava em um dos melhores empregos do jornalismo do Brasil, como
chefe do escritório da revista no Rio, responsável pela coluna
"Radar", ganhando um belo salário, quando o Marcos Sá Correa, que
tinha me levado para o JB, me chamou para fazer jornalismo na
internet.
ABI Online - Era uma proposta vantajosa?
Ancelmo - Eu fui para o NO porque confiava muito no taco
do Marcos. Ele já tinha sido meu chefe no Jornal do Brasil e o
salário era do tamanho de um caminhão. Eu ganhava três vezes mais
do que na Veja. Naquele tempo a internet era um mercado de altos
salários. Eu comprei um apartamento com esse trabalho. Foram
quinhentos dias trabalhando no NO. Uma experiência rica, porque era
um veículo muito diferente do jornalismo impresso.
ABI Online - Foi difícil se adaptar a essa mídia
nova?
Ancelmo - Eu achava que ninguém me lia, principalmente
porque tinha saído de uma coluna de 4 milhões de leitores, para um
negócio chamado internet. Tinha dias que eu me sentia isolado e
ficava gritando para a máquina "Tem alguém aí? Tem alguém aí?". Uma
coisa que eu tive que me adaptar foi a relação com as fontes.
ABI Online - Como assim?
Ancelmo - Uma coisa é você ligar para um ministro dizendo
que é o Ancelmo Gois da Veja. Outra é falar que é do NO. Do outro
lado da linha vinha sempre a pergunta: "NO? O que é NO?". Então eu
tinha que ficar explicando para as secretárias que NO era o site
jornalístico Notícia Opinião, era uma loucura. Teve também outras
coisas interessantes.
ABI Online - Quais?
Ancelmo - A internet é fantástica por causa da parceria e
interação com o leitor que nos proporciona. Se a gente escreve uma
bobagem, imediatamente recebe uma mensagem assinalando que a nota
contém erro. Numa questão de minutos um cara lhe escreve provando
que você é um merda. No impresso você só tem esse contato uma vez
por dia, quando abre a correspondência vinda pelo correio. Enquanto
que na internet essa comunicação é on-line, com pessoas que podem
ser idiotas ou cultas. A internet levou à exaustão a interação do
leitor com o veículo.
ABI Online - E por que o NO não foi adiante?
Ancelmo - O NO era bancado por um grupo de empresários que
não tinha nada a ver com o jornalismo. Gente como Daniel Dantas,
pessoas ligadas à Brahma, o Carlos Jereissati e o dono da Andrade
Gutierrez, ou seja, investidores que criaram um produto
jornalístico certamente para vender mais adiante por um bom
dinheiro, como era comum naquela época. Só que no meio do caminho
caiu a bolha e nesse período vagou o cargo de colunista aqui no
Globo, para onde eu vim substituir o Ricardo Boechat, que é um
grande amigo meu.
ABI Online - Quem são as suas referências no colunismo
nacional?
Ancelmo - A maior delas foi o Zózimo com quem eu
convivi no JB. Ele me inspirou no uso de algumas expressões. Eu
utilizo na coluna o estilo que ele e o Ibrahim Sued já usavam. Mas
eu acho que o Zózimo era o brasileiro que melhor escrevia em três
linhas. Escrever pouco é mais difícil do que escrever muito. Fazer
um texto de dez laudas é muito mais fácil, do que resumir toda
informação em poucas linhas. Essa é uma prática que requer uma
inteligência especial. Mas eu acho que a qualidade maior do
colunista é o gosto pela reportagem, pela notícia e pelo furo.
ABI Online - Qual o princípio que você defende sobre a
relação do colunista com as fontes?
Ancelmo - É um desafio diário você se aproximar, conviver
e se separar quando é necessário de uma fonte. Vamos supor que a
fonte é um pilantra, você não vai ligar para ele e falar: "Oi seu
pilantra, me dá uma notícia". O que eu quero dizer é que uma boa
coluna não vive de falar somente com santos. O colunista não pode
ser promíscuo, mas é impossível publicar as safadezas que ocorrem
em Brasília ligando para o Colégio São Bento ou o Convento de Santo
Antônio. Porque se você ligar para esses lugares não vai conseguir
apurar o que está acontecendo de ruim na Capital. Pra isso o
colunista tem que ligar para os próprios personagens. Alguns
ilustres, mas a maioria nem tanto.
ABI Online - Existe uma fórmula para colunista não
escorregar na questão ética?
Ancelmo - Na realidade eu não sei qual é a melhor maneira
de se abordar uma fonte, se tornar próximo dela e, por questões
éticas, manter a devida distância. Sinceramente, eu não tenho uma
fórmula para isso.
ABI Online - Quem são as fontes que você chama de cinco
estrelas?
Ancelmo - Com o tempo o colunista vai descobrindo as
fontes que são boas de notícia e aquelas que nem tanto. O Doutor
Ulysses era uma boa fonte, mas quando se pedia a ele para revelar
um bastidor ele negava, já o Antônio Carlos Magalhães contava. Ao
longo do tempo o jornalista vai aprendendo que uma fonte não
precisa ser necessariamente o presidente da empresa, pode ser a
secretária ou até mesmo um concorrente. Com o amadurecimento na
profissão a gente aprende quem são as pessoas para quem se deve
ligar. Descobrimos quem é fonte cinco estrelas, quatro, duas ou
uma. Tem a fonte com quem falamos uma vez por mês, outras a gente
liga todo dia. Essas são as cinco estrelas.
ABI Online - Você costuma checar a informação?
Ancelmo - Depende da informação, da gravidade do assunto e
da fonte. Como eu disse anteriormente depois de um longo tempo na
profissão o colunista vai prestando atenção naqueles que nunca
falharam e que lhe deixam mais relaxado. E também no cara em que a
gente não confia, e que nos obriga a dar dois ou três telefonemas
para checar a informação.
ABI Online - Em que medida o trabalho em equipe ajuda na
qualidade da notícia?
Ancelmo - As colunas atualmente são feitas em equipe, não
é mais como antigamente o trabalho de uma só pessoa. A nossa é a
melhor do colunismo brasileiro.
ABI Online - Você pode identificar os seus
colaboradores?
Ancelmo - Um deles é o Marceu Vieira, que é o meu
braço-direito e o cara que traz alguma graça para as notas da
coluna. Conto também com a Ana Cláudia Guimarães e o Aydano Motta
que é o editor do site. Oitenta por cento do meu trabalho e o de
toda a equipe é dizer não aos pedidos que chegam. É por isso que
toda coluna tem que ter um bom grupo trabalhando. Como a gente faz
uma coluna que é muito lida, temos uma pressão muito forte de gente
querendo plantar notas.
ABI Online - Você tem uma jornada de trabalho muito
extensa?
Ancelmo - É um processo de muita relação. Basicamente todo
dia o jornal manda um motorista me pegar de carro em casa às dez da
manhã e às dez da noite é que eu saio da redação de volta ao
lar.
ABI Online - Como é que você lida com o grande volume de
informações que recebe diariamente?
Ancelmo - As notícias cada vez mais têm um prazo de
validade mais curto. Então muitas vezes o cara tem uma boa
história, mas se ele me contar fora do prazo de validade não
adianta. O mundo de hoje está cada vez mais veloz. É uma rapidez
tão grande de uma informação que às vezes o jornalista bobeia e não
apura direito. Na internet isso é mortal. Foi o que aconteceu com a
Agência Estado, que ligou para a casa do Zuenir Ventura e o garoto
que atendeu de sacanagem disse "o Zuenir morreu", e os caras
publicaram que o Zuenir tinha morrido. A internet é uma máquina
mortífera que já matou muita gente, inclusive o mestre Zuenir
(risos).
ABI Online - Como se defender desse tipo de
barriga?
Ancelmo -Temos que ter cuidado para a rapidez não nos
domar, porque não podemos dar desculpa pelo tipo de notícia. Não se
pode dar uma nota na internet ou na rádio sem checar, a começar
pela morte de alguém.
ABI - O jornalismo on-line é mesmo uma ameaça para o
impresso?
Ancelmo - Tem um jornalista americano que disse que o
jornal impresso vai acabar no verão de 2035, então eu quero que ele
se dane. Primeiro, porque eu não acredito muito nisso; segundo,
porque em 2035 eu posso não estar vivo; e terceiro porque eu não
quero que acabe. O jornal impresso terá um dia uma finalidade mais
nobre, por isso não vai acabar.
ABI Online - Na sua opinião qual é o nível do jornalismo
brasileiro?
Ancelmo - Eu acho que nós fazemos um jornalismo muito
moderno. Veja o caso da TV Globo que tem sido comparada com o que
há de melhor nas TVs estrangeiras, inclusive por causa da produção
de novelas. No caso das revistas há publicações como a Veja, que
está no nível das maiores revistas semanais do mundo.
ABI Online - Atualmente ela tem sido muito
criticada.
Ancelmo - Essa é uma outra questão que suscita o debate
sobre como a imprensa se comporta diante dos fatos. Cada um reage
de acordo com o seu olhar, o seu cacoete e as suas predileções
ideológicas. Eu acho que nesse contexto a Veja radicalizou o seu
posicionamento, principalmente no conteúdo político que é bom. Se
não fosse, a revista não seria vendida. Se de um lado é um sucesso,
por outro gera uma reação muito forte naqueles que pensam
diferente. Os jornais também não são isentos. Para mim não há
problema nenhum a Veja ter assumido esse caminho, desde que haja
outras publicações que assumam outras posições. Isso não me
assusta.
ABI Online - Alguma vez você foi censurado?
Ancelmo - Rigorosamente não, mas já tive que responder a
dezenas de processos. O Eurico Miranda, ex- dirigente do Vasco, já
abriu vários contra mim. Ele de sacanagem levava as ações para o
Fórum de Duque de Caxias, alegando que o Globo tem um escritório
lá. Só pelo prazer de me deslocar para a Baixada Fluminense.
ABI Online - É uma situação constrangedora.
Ancelmo - Mas eu acho, e digo isso de coração, que somente
vamos conseguir fazer um país correto dando às pessoas o direito de
contestarem a imprensa. Ninguém está acima da lei. O Poder
Judiciário, desde que bem acionado, é um instrumento para ser
acessado contra qualquer cidadão, seja jornalista ou presidente da
República.
ABI Online - Como você analisa o quadro político
brasileiro na atualidade?
Ancelmo - A política é uma arte nobre indispensável no
processo civilizatório de todas as sociedades. No caso brasileiro,
o que me preocupa é uma certa alienação de uma parcela da sociedade
com a política, principalmente os jovens. Vivemos um momento
político especial, mas no fundo somos vítimas do nosso próprio
sucesso. Como implantamos uma democracia, nós deixamos de nos
dedicar mais à política.
ABI Online - Quais são os problemas que esse
comportamento tem acarretado?
Ancelmo - Eu vejo com muita inquietação os dilemas que
estão colocados para política brasileira, que necessita urgente de
uma reforma. Acho que um dos grandes problemas do Brasil hoje é o
fim dos partidos. Por exemplo, o PMDB é atualmente uma sigla
partidária regionalizada. Cada diretório do partido, em um
município qualquer do Brasil, pode ter uma política diferenciada do
outro.
ABI Online - Que tipo de prejuízos isso acarreta para o
processo político?
Ancelmo - Não é possível fazer um Congresso sem partido,
um conglomerado de tendências. Por isso a reforma política no
Brasil é fundamental. Veja o caso da eleição norte-americana, ali
está muito claro que só existem dois partidos: o democrata e o
republicano que são mais protecionistas no campo da economia e mais
interventores no âmbito do Estado. Os democratas defendem garantias
sociais mais fortes, enquanto os republicanos são mais liberais no
campo econômico. As coisas estão mais ou menos separadas.
ABI Online - Você acha que no Brasil as propostas não
são tão claras?
Ancelmo - Exatamente. O que é o PT hoje? Por que em São
Paulo, nas últimas eleições, o PT tem tido uma diferença tão grande
de votos em relação ao Rio de Janeiro? É porque são dois partidos
totalmente diferentes reunidos em um só. O erro não está na
população, mas nos partidos; e o que vale para o PT, vale para o
PSDB, PMDB e qualquer outra sigla partidária.
ABI Online - No momento, você acumula o trabalho na
coluna com o programa "De lá pra cá" na TV Brasil. Você gosta da
televisão?
Ancelmo - O programa, que eu apresento com a Vera Barroso,
é voltado para a História, no qual a gente parte de um dado
histórico e o trazemos para o presente. Por isso o nome "De lá pra
cá". Pegamos um episódio do passado e mostramos o que aconteceu
daquela data até os dias de hoje. Nos 70 anos do lançamento do
livro "Vidas secas", do Graciliano Ramos, fomos até Palmeiras dos
Índios, terra onde nasceu o escritor, mostrar a vida naquela cidade
atualmente.
ABI Online - E você está se sentindo à vontade como
âncora de programa televisivo?
Ancelmo - É um brinquedo, mas o meu negócio é o jornalismo
em papel.
Morreu em Salvador, na Bahia, no dia 10 de março de 2007, o professor Cecílio Cunha, nascido em Frei Paulo (SE) em 11 de dezembro de 1910.
Vivia com a família – os filhos Carlos Cunha, poeta, autor dentre outros de Goivos, Ilhas para morreu e A flauta onínira e Diretor da Academia de Letras da Bahia, Lucinao Cunha e Maria Helena Cunha Barata, e os netos Marcelo Cunha Barata e Cristiane Cunha Barata –desde que perdeu a mulher, Maria Alice de Lima Cunha, e o filho Nilton Cunha. Exerceu várias funções ligadas ao magistério estadual, desde a de Fiscal ou Inspetor da Escola de Comércio Conselheiro Orlando, nos anos de 1930, Professor catedrático de Matemática da Escola Normal, em Aracaju, deixando um nome respeitável entre os seus alunos, até as de Diretor da velha Escola Normal, depois Instituto de Educação Rui Barbosa, exercendo com moderação, tolerância e competência as suas funções, igualmente fazendo uma reputação que ainda hoje repercute, apesar da longa passagem do tempo.
A professora e acadêmica Lígia Madureira Pina, em recente depoimento na Academia Sergipana de Letras evocou a figura do professor Cecílio Cunha, sob o foco da tolerância, ao flexibilizar a obrigatoriedade e o rigor extenuante das aulas aterrorizantes de educação física. Na Bahia, Cecílio Cunha foi professor da Escola Profissional, da PETROBRÁS, e professor do Ginásio Municipal Luiz Viana Neto. Mesmo sendo um catedrático de Matemática, o professor Cecílio Cunha ficou mais conhecido como autor de um livro de português, Na Seara do Vernáculo, espécie de manual destinado a estudantes e a candidatos a concursos públicos. Publicado pela primeira vez há 50 anos (Aracaju: Livraria Regina, 1957), teve em Salvador, no ano seguinte, nova edição (Salvador: Editora Mensageiro da Fé, 1958), o livro do professor Cecílio Cunha tornou-se uma referência, tanto pelos esclarecimentos do uso geral da língua portuguesa, como e principalmente pela seleta antológica, em prosa e versos, de autores sergipanos, seus contemporâneos.
Deixando de fora os nomes mais eminentes, cada um com sua glória, o professor Cecílio Cunha reuniu textos dos intelectuais sergipanos que viviam em Sergipe, e exerciam as mais diversas funções. Na seara do vernáculo é, portanto, um livro essencial, produzido com amor à terra, projetando as gerações mais novas da vida cultural sergipana. O prefácio da 1ª edição é do professor Manoel Cândido dos Santos Pereira, o da 2ª é do professor José Augusto da Rocha Lima, dois dos maiores vultos do magistério sergipano.
Composto de páginas literárias, todas de autores sergipanos, como Brício Cardoso, Graccho Cardoso, Felte Bezerra, Domingos Fonseca, Zózimo Lima, Severino Uchoa, José Augusto da Rocha Lima, Mário Cabral, Jackson de Figueiredo, Rubens de Figueiredo, José Amado Nascimento, Freire Ribeiro, Jacinto de Figueiredo, Pires Wynne, Santo Souza, Clodoaldo de Alencar, Silva Ribeiro Filho, Manoel Cabral Machado, Garcia Rosa, Amando Fontes, José Bezerra dos Santos, José Maria Fontes e Gizelda Santana Morais -, modelos de redação, que faz lembrar os velhos manuais, como O orador familiar, e de textos errados e corrigidos, Na Seara do Vernáculo supriu, por muitos anos, a necessidade dos jovens sergipanos e baianos, alunos das diversas escolas, ou candidatos aos concursos públicos, sendo uma espécie de crestomatia sergipana.
O livro do professor Cecílio Cunha precisa ser reeditado, não apenas como forma de homenagear o autor, que fará em 2010, cem anos de nascido, mas como um registro antológico de autores que as escolas, lamentavelmente, desconhecem.
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